Roberto Cézar Mauricio: Oneroso sangue negro

Especialista em QSMS analisa o preço da insegurança em operações offshore

Por Roberto Cézar Mauricio*

A agência classificadora de risco Standard & Poor’s afirmou, em relatório publicado no início do ano, que a estimativa do custo de uma diária de uma sonda de perfuração em águas profundas e ultra profundas em 2019 seria de aproximadamente US$ 230 mil.

No processo de licitação para afretamento do FPSO para o campo de Mero 2, no pré-sal da Bacia de Santos, a Petrobras teve como melhor oferta uma proposta em torno de US$ 700 mil/dia.

A indústria petrolífera offshore depende de grandes investimentos em todas as fases dos processos, e a diária de uma plataforma expressa o quão vultosos são os valores aplicados em alto mar – isso sem incluir operações que podem ocorrer em paralelo (perfilagem, canhoneio, cimentação, estimulação de poços etc).

Acidente a bordo: pagando caro

A busca pela otimização de custos nos processos de upstream em alto mar resulta em preocupação com o tempo das operações (a pressa), podendo fazer com que métodos inadequados configurem-se em eventos indesejáveis, como incidentes operacionais ou acidentes pessoais.

Além das probabilidades de irreparáveis danos pessoais e ao meio ambiente, os acidentes podem gerar ônus à frente do lucro esperado ou até mesmo levar a perdas financeiras sem precedentes para uma empresa.

Analisaremos, de forma superficial, os impactos financeiros dos acidentes da BP no Golfo do México e da P-36, no Brasil.

Deepwater Horizon: decisões econômicas e prejuízo bilionário

O acidente na plataforma de perfuração Deepwater Horizon, operada pela Transocenan a serviço da BP (British Petroleum), em 20 de abril de 2010, resultou na morte de 11 trabalhadores, deflagrou o maior acidente ambiental da história do petróleo e gerou um prejuízo para a BP que, até 2018, estava em torno de U$ 65 bilhões, somados a controle do vazamento, indenizações, recuperação de área poluída e multas.

Entre os fatores que levaram ao acidente, segundo o relatório final, os investigadores relataram negligências da BP, Transocean e Halliburton associadas a tentativas de redução de tempo e dinheiro durante as operações, sem levar em consideração riscos futuros. Esse registro nos leva à seguinte pergunta: os resultados esperados de tais “decisões economicamente viáveis” estariam acima dos lucros previstos para conclusão do poço?

Não temos essa resposta, mas o que é explicito aos olhos de qualquer leigo é que essas decisões, independentemente do melhor resultado financeiro, estariam muito aquém dos US$ 65 bilhões que quase levaram a BP à falência.

P-36: perda total

Em 15 de março de 2001, a P-36 – então maior plataforma flutuante do mundo e orgulho da Petrobras – naufragou depois de explosões que deixaram 11 brigadistas mortos, apenas um ano após o início de sua operação.

De acordo com os relatórios de investigações, os principais fatores que ocasionaram o incidente seriam falhas de projeto, falta de treinamentos e falhas mecânicas (principalmente da válvula do tanque de drenagem dando passagem).

A P-36 tinha uma capacidade de produção de 180 mil barris/ dia, sendo, que na época do acidente, a plataforma produzia 80 mil barris/dia com o valor de mercado a 25 dólares/barril.

Analisando os números da tabela abaixo, fica de fácil compreensão o quanto a empresa deixaria de faturar com paradas de manutenção, o que perderia de imediato em produção e lucro com a ocorrência do acidente e o que poderia continuar perdendo.

Capacidade de produção

Barril /dia

Produção diária Preço do barril março 2001 Estimativa de faturamento (dia)
180 mil 80 mil U$ 25 R$ 2 milhões

 

Os analistas, na época, previam um prejuízo de mais de U$ 1 bilhão, levando-se em conta o que a Petrobras deixava de produzir, somado ao que teria que importar.

As multas lavradas pelo Ibama foram da ordem de R$ 2 milhões pelo uso de dispersante químico para controlar vazamento de óleo e de R$ 5 milhões por derramamento de 1,4 milhões de litros da substância. Como a Petrobras era reincidência inferior a 3 anos em derramamento de óleo a multa foi triplicada, subindo para R$15 milhões. Ou seja, uma conta ambiental de R$ 17 milhões.

Assegurando os negócios: pagando mais por menos

A perda total da Plataforma de Produção causou um alvoroço e a disparada de preços nas apólices de seguro. A embarcação estava assegura em U$ 500 milhões, sendo que 1% era assegurado por um consórcio nacional e 99%, na condição de resseguro, por um consórcio de empresas internacionais.

Iniciada em 2000, a apólice da Petrobras que assegurava seus negócios (inclusive a P-36) venceria 11 dias após o naufrágio da plataforma. Com o advento do acidente, o valor do novo contrato quase que quintuplicou, saindo de U$ 10 milhões para 48,8 milhões na nova apólice e assegurando valor inferior: US$ 20,9 bilhões ante US$ 32 bilhões do contrato anterior.

COMPARAÇÃO DOS VALORES DE CONTRATO DE SEGURO DA PETROBRÁS
Antes do acidente Após o sinistro
Apólice U$ 10 milhões Apólice U$ 48,8 milhões
Valor segurado U$ 32 bilhões Valor segurado U$ 20,9 bilhões

 

Autossuficiência: o preço de um sonho

A sonhada meta de atingir a autossuficiência em 2005 na produção de petróleo se tornara mais distante com o acidente. A P-36 era responsável por 6% da produção nacional, sendo que a unidade ainda não operava em capacidade plena (180 mil barris/dia).

Embora a Petrobras tenha conseguido, de fato, atingir a autossuficiência em 2005 com a plataforma P-50, a tragédia de 2001 deixou uma marca profunda no histórico da empresa.

No registro dos três últimos dias que antecederam o incidente nos boletins operacionais diários de um dos superintendentes da plataforma, consta relato sobre a necessidade de manutenção no sistema de vent da plataforma, o que – embora não comprometesse a segurança e tampouco tenha contribuído para o acidente – sinaliza uma deficiência na cultura de prevenção no cumprimento do planos de manutenção.

Lições Aprendidas: sabedoria gratuita

A sabedoria herdada das lições aprendidas e praticadas no comportamento, atitudes, discursos prevencionistas e alinhadas às tomadas de decisões – principalmente da alta administração – é o único legado esperado dos acidentes.

Se a segurança, seja ela operacional ou ocupacional, não for vista como parte do negócio, com verba delineada nos planos de objetivos e metas das empresas e como um requisito inegociável, talvez estejamos fadados a lamentarmos perdas futuras como as dos acidentes relatados.

Dois acidentes, danos ambientais apocalípticos, perdas bilionárias e 22 dois trabalhadores mortos. Que valor investido em segurança poderia ser considerado alto diante desse oneroso sangue negro?

*Sócio Administrador da Sinergia Consultoria e Treinamento, especializado em Qualidade, Segurança, Saúde e Meio Ambiente, com mais de 17 anos de experiência offshore

 

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