Por um conteúdo local 4.0

Esforços para a criação de uma indústria local forte no petróleo poderiam se direcionar para a digitalização

Uma pesquisa da consultoria internacional, de 2017, sobre o tema “drill deeper into digital”, concluiu que (tradução livre e reduzida):

  • As empresas reconhecem o poder da digitalização
  • Ganhos significativos requerem maturidade das análises
  • A ampliação da digitalização esbarra na organização interna
  • A maioria das empresas de O&G não está recebendo vantagens da digitalização para resolver questões de forças de trabalho
  • As empresas de O&G temem não serem competitivas na era digital

Além disto, os preços do óleo cru têm variado com maior frequência ultimamente. Alguns analistas projetaram queda para US$ 20 ou US$ 30 por barril, mas temporariamente a commodity encontra-se na casa dos US$ 60 a US$ 70 dólares por barril. E os volumes de óleo e gás ofertados têm sido suficientes para o consumo mundial, não há carência aparente.

Com esse cenário, o que virá pela frente?

Com as dúvidas em relação aos preços, as ameaças de fontes de energia concorrentes e as mudanças tecnológicas em diversos segmentos produtivos, não resta outra direção para o setor de óleo e gás a não ser a de redução de custos sistêmica e o aumento da produtividade, onde aparece a oportunidade da digitalização dos ambientes.

O conceito da Indústria 4.0 é mais do que a simples automação. Passa por conexão, uso de big data, sistemas analíticos, convergência da internet das coisas, inteligência artificial e mobilidade.

A Indústria 4.0 carrega oportunidades imensas em um segmento que sempre teve lucros expressivos apenas com tecnologias especializadas (poço, subsea, etc), nunca atentando o suficiente para as demais tecnologias mais comuns, que atualmente têm direcionado muitos investimentos e lucros empresariais. A mobilidade, por exemplo, genérica, agora possui espaço novo na indústria de óleo e gás.

Isso pode permitir a redução de atividades manuais desnecessárias, a revisão de registros múltiplos de dados em diversas atividades para um só correspondente – hoje são múltiplos – , redução de perdas e otimizações antes não disponíveis.

As grandes corporações de serviços com alta tecnologia são mais lentas que as pequenas que as alimentam. Estas normalmente promovem as inovações mais rapidamente, até que as grandes atentem para o risco e às vezes incorporem-nas. Ou, elas mesmo, as pequenas, cresçam e tomem lugar no cenário de competição da primeira camada de contato com as operadoras de petróleo.

Com as dúvidas em relação aos preços, as ameaças de fontes de energia concorrentes e as mudanças tecnológicas em diversos segmentos produtivos, não resta outra direção para o setor de óleo e gás a não ser a de redução de custos sistêmica e o aumento da produtividade

Isso não é diferente do que ocorre com os fabricantes chineses de celulares, por exemplo, que agora pesquisam, inventam e já lançam novidades antes de seus clientes gigantes (Apple, Microsoft, LG, Samsung, etc.) sentados nas sedes enormes da América, Europa ou qualquer outro lugar do mundo.

As economias serão muitas, na integração, na não duplicação, na “desmanualização”, na velocidade e na unicidade. A digitalização desemprega na execução substituível, mas emprega na tecnologia, fabricação, instalação e manutenção dos novos sistemas. Há uma certa compensação e uma qualificação técnica requerida do local onde essas mudanças acontecem, ou se aplicam.

Fatores como operação instantânea, com decisões em tempo real; monitoramento remoto de processos; tomada de decisões descentralizadas; foco em serviços, não só em equipamento; flexibilidade das tarefas e “componebilidade” são alguns dos direcionadores desse novo movimento industrial.

Há aspectos que não devem ser negligenciados, que são a redundância e a contingência dos ambientes. São os mecanismos de ação para quando um sistema se depara com alguma anormalidade. Com o ser humano presente, esse quase sempre acha uma saída para o imprevisto. Máquinas não pensam, se não forem projetadas para todos os tipos preventivos de anormalidade. A demanda e o aprendizado ainda devem requerer operação duplicada ou mista até que se tenha segurança de migração mais radical para sistemas complexos novos isolados. Emergências requerem experiência acumulada e previsibilidade de programação.

Isso porque existe um medo crescente de que um dia o ser humano seja ultrapassado e se torne escravo de suas próprias invenções, tão frequente em filmes de ficção científica.

Assim, a digitalização está vindo com força. A indústria nacional oxalá esteja se preparando para essa fase, para não ter de sofrer novamente de possível defasagem tecnológica. Uma solução seria direcionar o conteúdo local para as soluções que envolvessem a digitalização, com o país ficando à frente dessa mudança que está chegando, de forma estratégica e articulada entre governo, indústria e universidade.

Por um Conteúdo Local 4.0.

Armando Cavanha (cavanha.com) é professor convidado da FGV/MBA

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