JASON CARNEIRO: Sobre cestos e ovos

Gestão de portfólio e diversificação são conceitos que o Estado pode utilizar para mitigar riscos e maximizar as chances de sucesso

An investment in knowledge pays the best interest.

         Benjamin Franklin

Empresas de petróleo têm portfólios de ativos, para mitigar riscos e criar equilíbrio e sustentabilidade na persecução de seus objetivos estratégicos. Noutras palavras, para aumentar as chances de sucesso da empresa, como quer que ela o defina.

Um portfólio pode abranger prospectos de um mesmo play, ou em vários, para mitigar riscos geológicos; pode cobrir diferentes países, protegendo a empresa de above-ground risks; pode balancear exploração e produção, para criar sustentabilidade, ao conter ativos que geram caixa e ativos que demandam investimento. Portfólios podem ainda dividir sua atenção entre óleo e gás, combinar projetos de diferentes escalas ou ciclos de caixa, de variadas faixas de custos unitários. É pela diversificação que as empresas buscam proteger-se de riscos e maximizar os resultados de seus investimentos, não só financeiros, mas também do tempo de suas equipes¹.

Cada Estado tem também o seu portfólio. A não ser que se envolva em guerras de território², um Estado não pode mudar sua geologia: do seu ponto de vista, o risco é que seus recursos sejam despriorizados pelos outros players. Porque se as empresas acessam os ativos que formam o seu portfólio por meio do Estado, o Estado também acessa os ativos que formam o seu portfólio por meio das empresas³. Para isso, a ferramenta usada pelas empresas é o investimento; a ferramenta do Estado é a atratividade.

O Estado tem seus objetivos estratégicos como player da indústria: maximizar reservas e produção, com objetivos fiscais ou diplomáticos; desenvolver e integrar economicamente diferentes regiões do país; criar ou absorver tecnologia e fazer crescer a indústria local; desenvolver as diversas capacidades dos seus recursos humanos, com efeitos inclusive demográficos, se considerarmos a mobilização ou a fixação de pessoal habilitado; criar infraestrutura que sirva também de espinha dorsal para outros ramos da economia; elevar o bem-estar geral por meio de redistribuições de renda entre a população atual ou entre gerações. A lista não esgota os possíveis objetivos legítimos do Estado – nomeá-los e combiná-los em justa proporção é assunto de boa política.

Gestão de portfólio e diversificação são conceitos que o Estado pode utilizar para mitigar riscos e maximizar as chances de sucesso, como quer que ele o defina. Os plays desconhecidos, os não completamente explorados e os maduros podem ser colocados a serviço dos seus objetivos estratégicos, em qualquer combinação que se eleja. Buscar atrair empresas de tamanho, capacidade técnica, interesses e resiliência diferentes pode ter efeitos estabilizadores sobre a atividade econômica e sua distribuição geográfica no país. Um número maior de empresas estabelecidas corresponde a um número maior de oportunidades de emprego e desenvolvimento para as pessoas em todas as partes de cadeia.

Objetivos de empresas e Estados são antagônicos em certos aspectos, em outros se somam. Por exemplo, cada um busca maximizar a apropriação da renda da produção. De outro lado, em exploração, todos desejam um maior número de oportunidades a perfurar, e reduzir a duração dos ciclos do negócio. Desafio interessante é pensar se o olhar da gestão de portfólio poderia levar a regulação a aprofundar alinhamentos, adicionando flexibilidade e velocidade a certos processos, e incrementando a atratividade.


¹Além do trabalho original de Harry Markowitz, sugiro as publicações de Paul Newendorp, John Schuyler, Timothy Nieman, Peter Rose, James Mackay, Ian Lerche. Exemplos de bons resumos em https://www.linkedin.com/pulse/active-portfolio-management-key-long-successful-life-ricardo-barreto e https://naft.ca/portfolio-management-in-oil-and-gas-industry-part-12 (em duas partes).

² O que deveria ser inimaginável no século XXI.

³ Aqui não faço diferença entre empresas privadas ou estatais, e estou assumindo racionalidade econômica para a exploração e a explotação dos recursos.

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