Jason Carneiro: O Óbvio

Precisamos enxergar o óbvio, corrigir os rumos se necessário e avançar na agenda do setor

“Live as if you were living already for the second time and as if you had acted the first time as wrongly as you are about to act now!”

― Viktor Frankl

Em uma manhã de janeiro de 2007, o garoto prodígio, violinista virtuose Joshua Bell levou seu Stradivarius de três milhões de dólares ao metrô de Washington. Abriu a caixa do instrumento no chão, pôs um pouco de seu próprio dinheiro e começou a tocar o quanto sabia. Uma pessoa o reconheceu, e deixou 20 dólares na caixa do violino. Afora essa pessoa, e outras sete que pararam para ouvi-lo, mais de mil outras passaram por ele não notaram o que estava acontecendo. Todas juntas, deixaram algo como 32 dólares para Bell. Não gostam de música? Quarenta e três minutos de vídeo mostram que nem sequer a ouviram. Na correria diária para chegar ao trabalho, não viram Bell.

Pilotos de jatos comerciais em manobra de aproximação para pouso, exatamente quando a segurança de centenas de passageiros – e a sua própria – depende de que se concentrem em múltiplos indicadores no painel e fatores externos ao avião, deixam de ver jatos que inadvertidamente entram taxiando na pista de pouso. Um policial, determinado a capturar um fugitivo, não percebe o espancamento de um colega. Um comandante de submarino, após olhar diretamente para um barco de pesca, pôde simplesmente não o ver, e dar a ordem para a manobra de subida rápida que resultou no abalroamento desse barco e na morte de nove pessoas.

Esses exemplos e muitos outros estão registrados no livro The Invisible Gorilla – How Our Intuition Deceives Us, de Christopher Chabris e Daniel Simons. Os professores e pesquisadores mostram que temos dificuldade de ver o que não esperamos. Que, independente de estarmos olhando diretamente para uma cena, o simples fato de termos a atenção focada em um aspecto dela pode nos cegar para outros, não importando sua relevância – seja uma oportunidade ou ameaça¹. Temos uma “ilusão de atenção”, enquanto na verdade passamos por uma “cegueira por desatenção”².

Ver o óbvio nem sempre é tão simples quanto parece.

A cegueira por desatenção tem uma prima não muito distante, conhecida como Lei das Consequências não Intencionais³. O mais famoso exemplo é uma anedota da Índia colonial: o governo inglês, preocupado com a quantidade de cobras em Delhi, estabeleceu uma recompensa pela captura e morte delas. Após algum tempo, algumas pessoas passaram a criar cobras para entregar ao governo e recolher o butim. Com mais e mais cobras chegando, o governo acabou descobrindo o estratagema, e suspendeu as recompensas. Frustrados, os agora criadores de cobras soltaram os animais, e o que era uma ação para diminuir a população de cobras acabou resultando em um número ainda maior de animais soltos pela cidade4.

Agir sobre o óbvio nem sempre é tão simples quanto parece5.

Em nosso país e em nosso tempo, pudemos suspender por cinco anos o acesso a áreas de exploração (com o Brent em alta – Figura 1), sem visualizar o efeito devastador, ainda que potencializado por outros fatores, sobre o nível de atividade e de emprego. Pudemos também, tentando aumentar a quantidade de bens e serviços contratados no país, tomar medidas que contribuíram exatamente para o contrário. Ficamos cegos pelo excesso de volume descoberto – ou pela ideologia. Não vimos o que não esperávamos ver.

Diante do óbvio, corrigimos o rumo, e cabe comemorar. Não foi pouco o realizado nestes últimos dois anos. Houve leilões, há outros previstos, há a oferta permanente. Precisamos continuar: há sempre mais para ver. A retomada começou, precisamos avançar. Precisamos discutir como atrair mais empresas para o pós-sal e para o onshore. Empresas já devotadas a óleo e gás, ou novas, de capital nacional ou estrangeiro, para diversificar o portfólio do Estado. Precisamos decidir onde é possível e onde não é possível conduzir a atividade petroleira.

Figura 1: Área concedida no offshore em rodadas de licitação (excluído o pré-sal), com o preço médio anual do Brent. Fonte: ANP; BP Statistical Review 2017; www.statista.com.

Precisamos observar a janela de oportunidade para a produção de óleo e gás. Em que medida ela seria uma janela para a exploração? Embora as previsões continuem mostrando os combustíveis fósseis como muito relevantes em 2040, o tema está no ar, como na época em que se discutia o pico de Hubbert, agora com o sinal trocado. As empresas estão se aprontando para o cenário de baixo carbono, e há dúvidas se o gás natural será de fato o combustível da transição ou se saltaremos diretamente para as energias limpas. A tudo isso, soma-se um potencial efeito curioso, ao menos ao nível dos discursos: tem-se que é preciso produzir antes que a janela de oportunidade passe. Sim, petróleo no subsolo tem pouco ou nenhum valor – não se discute. Mas se todos os países e empresas acelerarem a produção em vista do fim da era do petróleo (que não vai terminar por falta de óleo), há uma tendência de impacto nos preços, que por sua vez afetariam não só os projetos de óleo e gás, mas também o próprio desenvolvimento das energias limpas. E o aumento da produção pode ainda gerar um aumento das emissões de carbono6

Há toda sorte de coisas invisíveis por aí, e soluções esdrúxulas estão sempre disponíveis. O diálogo é a melhor maneira de mitigar esses riscos7, e evitar que o ambiente de negócios do país, ainda percebido como complexo, perca atratividade. Temos a responsabilidade de avançar, equilibrando, como indústria, o que já sabemos e o que ainda precisamos aprender.

* Jason Carneiro é executivo e empreendedor do setor de petróleo, com passagens pela Maersk Oil, Vale Óleo e Gás e PGT – Petroleum Geoscience Technology, tendo exercido outras funções na indústria e na ANP. Atualmente é Gerente Executivo de Contratos da Pré-Sal Petróleo S.A.

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1Assista ao vídeo original em http://www.theinvisiblegorilla.com/videos.html. Se você já conhece o original, assista a The Monkey Business Illusion na mesma página, que aliás traz outros vídeos muito interessantes.
2Tradução livre e não especializada de inattentional blindness.
3Veja em https://www.econlib.org/library/Enc/UnintendedConsequences.html.
4Outro caso famoso, este bem documentado, ocorreu em 1902, no Vietnã: 4https://www.atlasobscura.com/articles/hanoi-rat-massacre-1902.
5Veja mais em https://ourworld.unu.edu/en/systems-thinking-and-the-cobra-effect.
6O green paradox é uma discussão corrente. Obrigado ao amigo Prof. Alexandre Szklo por nomeá-lo para mim.
7Diálogo, bem entendido, não é o que acontece quando a mesma parte controla duas narrativas opostas.
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