IEDA GOMES: O gás ganha força

Conferência Mundial de Gás foi realizada em Washington (EUA) foi marcada por debates sobre o futuro de gás e novos modelos de negócios

A Conferência Mundial de Gás foi realizada em Washington (EUA), de 25 a 29 de junho, com a participação de cerca de 2.000 delegados, e a ausência marcante de tradicionais empresas da Rússia e Irã, por força das sanções atualmente em vigor contra aqueles países.

Como destaque, a participação do Secretário de Estado de Energia dos EUA, Rick Perry, do novo Ministro de Minas e Energia da Argentina, Javier Iguacel e dos CEOs da BP, Equinor, Exxon, Total, ConocoPhillips e Chevron. O Brasil contou com representantes da Abegás, IBP, TBG, Petrobras, ANP, Abrace e MME.

O diretor-geral da ANP, Décio Oddone, e o gerente-executivo de Gás da Petrobras, Marcelo Cruz, contribuíram como palestrantes em painéis de debates e sessões plenárias.

O governo norte-americano está implementando uma iniciativa bilateral com a Índia, visando aperfeiçoar o marco regulatório do setor naquele país. Além disso, a ação visa a reduzir os entraves à maior participação do gás na matriz energética no país asiático; o Brasil poderia se beneficiar de iniciativa semelhante, caso deseje aprofundar laços com a Federal Energy Commission (FERC) e com o Departamento de Energia, órgãos do governo dos EUA.

Os principais temas de interesse relacionam-se com as questões climáticas e o papel do gás como combustível de destino ou de transição, a emergência da China como o segundo maior mercado importador mundial de GNL e como as empresas de petróleo estão se adaptando à realidade de um futuro energético mais descarbonizado.

Nesse último caso, algumas empresas refletem esse futuro com mudança nos nomes e marcas: a Statoil passa a chamar-se Equinor, a Gás Natural Fenosa mudou para Naturgy, a GDF Suez passou a chamar-se Engie e a BP, desde 2000, desenhou um logo com a estratégia de Beyond Petroleum.

As empresas petrolíferas vêm sendo pressionadas também por grupos ativistas, ONGs e investidores a se alinharem com as metas do Acordo de Paris. A BP anunciou recentemente que vai investir US$ 500 milhões por ano em energias mais limpas, a Shell prepara-se para investir mais de US$ 1 bilhão por ano em novas energias, a Total está investindo em energia solar e baterias, enquanto que a Equinor investe em energia éolica.

Uma das painelistas da ONU, referindo-se às emissões de metano na cadeia de valor do gás natural, acusou as empresas petrolíferas de “estarem lucrando” com emissões danosas ao meio ambiente, e deixou subentendido que se essas empresas não atuarem mais efetivamente, as organizações multilaterais cumprirão esse papel.

Em 2017 o presidente do Banco Mundial anunciou que deixaria de financiar projetos de E&P de petróleo e gás natural a partir de 2019, com exceções apenas para países mais pobres, onde o petróleo e gás sejam as opções mais viáveis para acesso à energia.

Em 2017, as energias renováveis foram responsáveis por 50% do crescimento da geração de eletricidade no planeta. Segundo a BP Statistical Review 2018, o crescimento dessas fontes energéticas em 2017 foi de 17%, enquanto que o consumo de gás natural cresceu 3%, o maior incremento anual desde 2010. A China (+15%) e o Irã (+6,8%) lideraram o aumento do crescimento.  A despeito do progresso do gás natural e das energias renováveis, o carvão ainda representa cerca de 38% da produção de energia elétrica no mundo.


Fonte: BP Statistical Review of World Energy

O GNL continua a ser considerado como uma opção energética fundamental para o crescimento econômico com menores impactos em termos de poluição e efeitos climáticos. Suprimentos crescentes oriundos de novos projetos na Austrália e EUA, acoplados a preços mais acessíveis, implicaram no aumento do comércio internacional de 356,7 bilhões de m3 em 2016 para 393,4 bilhões de m3 em 2017, com o crescimento recorde de importações pela China, que passou de 35,9 para 52,6 bilhões de m3 no mesmo período.

O governo chinês tem dado diretrizes firmes para substituição de carvão por gás natural e energias renováveis em grandes centros urbanos. Essas diretrizes passam pela proibição de uso de carvão em aquecimento residencial, retrofitting de usinas a carvão menos eficientes, na fixação de taxas de retorno de, respectivamente, 8% e 7%, para os segmentos de transporte e distribuição de gás, na obrigação de manutenção de estocagem tanto para os supridores como para os distribuidores de gás e na fixação da meta de participação do gás na matriz energética em 10% no ano de 2020, contra os atuais 7%. Existe uma previsão de que o consumo de gás na China atinja 400 bilhões de m3 em 2024, o que colocaria o país como o segundo maior consumidor de gás natural no mundo. Hoje a China conta com 18 terminais de importação de GNL, com capacidade de 90 bilhões de m3, que deverá ser ampliada para 104 bilhões de m3 em 2020.

Além do crescimento do consumo de GNL na China, destaca-se ainda o aumento de capacidade importação em mercados emergentes como o Paquistão, Malásia e Tailândia e o aparecimento de novos importadores, como Malta, Panamá, Bangladesh e Bahrain.

A despeito do crescimento do consumo, a demanda mundial real ainda ficará aquém da capacidade de liquefação até 2023/2025. Assim sendo, novos projetos greenfield no Canadá, EUA e Moçambique ainda não conseguiram massa crítica de contratos para possibilitar a decisão final de investimentos.

Paira ainda uma questão geopolítica, pois a guerra comercial entre os EUA e a China poderá prejudicar as exportações de GNL norte-americano para o mercado que apresenta maior índice de crescimento do consumo.

Um outro tópico de interesse releva a mudança no modelo de negócios: grandes compradores de GNL no mercado asiático resolveram alavancar a força de seus portfólios para tornarem-se supridores, como é o caso da Petrochina, com um portfólio de mais de 10 milhões de t/ano (mtpa) e do consórcio Tokyo Electric Power (TEPCO) e Chubu Electric, que uniram-se para formar a JERA, que hoje é o maior comprador mundial de GNL, agregando 35 mtpa, oito terminais de importação e 70 GW de demanda elétrica.

O rápido aumento da participação das energias renováveis e da eletrificação do transporte individual e coletivo, a pressão de ativistas e investidores contra combustíveis fósseis, bem como a crescente conscientização quanto às questões climáticas, colocam um ponto de interrogação sobre o valor futuro das reservas de petróleo e das companhias detentoras dessas reservas a partir de 2050. O gás natural é o combustível fóssil mais limpo e eficiente, mas o debate sobre as emissões de metano começa a tomar forma mais intensa, bem como a necessidade de uma análise mais aprofundada sobre o ciclo de vida dos projetos de gás natural.

Há três anos atrás, na Conferência Mundial realizada em Paris, as discussões centravam-se sobre preços e índices, bem como no papel dos governos em viabilizar a construção de infraestruturas. Na conferência de Washington, questões climáticas, o futuro do gás, novos modelos de negócios e questões geopolíticas ocuparam o centro dos debates.

*Ieda Gomes é uma consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação. Escreve quadrimestralmente para a Brasil Energia Petróleo

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