Cristina Pinho: Se entregar para transformar

Antes de irem para o digital, empresas da centenária indústria do petróleo têm que, de fato, serem digitais

Mark Manson é um blogueiro e pensador que acompanho. Suas mensagens sobre como lidar com os obstáculos que a vida apresenta são ótimas por serem claras e assertivas. Numa dessas mensagens, contou a história que reproduzo a seguir sobre o exercício de Marines (fuzileiros navais dos EUA) em piscina de não mais do que 2 m de profundidade.

Nesse exercício, os soldados são amarrados, pés e mãos, e jogados na piscina onde devem ficar por pelo menos 5 minutos. Prender o fôlego por 5 minutos não é possível para muitos, então o risco de afogamento é sério. Muitos se debatem, se desesperam, se afogam e são retirados quase sem sentidos.

Então, como ficar na piscina por 5 minutos ou mais e sobreviver?

A resposta é: entregue-se. Ter calma e encontrar a solução. Deixe-se afundar e ao tocar o fundo da piscina, impulsione o corpo para fora d’água, respire e torne a afundar. E assim é possível ficar por vários minutos neste vai e vem.

Vejo a transformação digital que as empresas têm que enfrentar como um desafio semelhante. É inevitável não participar dessa nova “revolução da informação “, mas ao invés de se desesperar, é necessário se entregar.

Entregar-se e abraçar o erro para acertar. Prototipar, falhar, começar de novo. Tomar decisões rápidas que ultrapassem as barreiras da gestão conservadora. Para isso, as empresas da nossa centenária indústria de óleo e gás têm de ser digitais para poderem ir para o digital. Como criar um ambiente de inovação e de cultura digital quando falhar sempre custou muito caro e o novo precisava ficar “velho” para ser colocado em operação?

Deve-se enxergar as oportunidades de complementaridade e coopetir, isto é, cooperar e competir, atuando junto para desenvolver uma competição saudável, numa relação ganha-ganha

Além dessa barreira cultural, há ainda a mudança necessária da relação com clientes e concorrentes. As redes de relacionamento devem ser construídas para contribuírem para uma nova forma de fazer negócios com a ajuda da tecnologia digital e da análise dos dados. Plataformas de compartilhamento de serviços devem ser criadas a várias mãos. Deve-se enxergar as oportunidades de complementaridade e coopetir, isto é, cooperar e competir, atuando junto para desenvolver uma competição saudável, numa relação ganha-ganha.

O velho dinossauro vai precisar decolar, ou as oportunidades de redução expressiva de custos operacionais, aumento significativo de produtividade, rapidez na implantação dos projetos, previsibilidade da integridade dos ativos, monitoramento e gestão da segurança operacional, como nunca se fez, serão perdidas.

Mas transformação digital não deve ser encarada somente para otimizar e fazer melhor o que já se fazia. Pode-se começar assim para que a cultura digital da empresa seja construída, mas tem que almejar muito mais: tem que buscar um novo modelo de negócio, um produto inovador para os clientes a partir de conexões do negócio antigo com as potencialidades criadas pela plataforma digital. Mas isso só acontecerá se existir o ambiente propício na empresa.

Muitas têm feito isso fora ou dentro delas, criando Startups in ou out, laboratórios de inovação internos, mas isoladas da gestão tradicional da companhia, e mantendo a competência técnica desenvolvida pela empresa como suporte das inovações de digitais. O desafio de dar o apoio e não se meter na gestão da startup é só mais um para nossa gigantesca e pesada indústria de óleo e gás.

O dinossauro tem que voar. E seus executivos devem entender que se debater só os levará a se afogar.

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