ARMANDO CAVANHA: Robotização e intuição

Os diferentes aspectos da inovação em óleo e gás e a efetiva tomada de decisões

Uma pesquisa da KPMG, apresentada no Global CEO Outlook 2018, sob o título Growing Pains, envolvendo 1.300 CEOs de 11 das maiores economias do mundo e de 11 indústrias chaves como automobilística, bancos, energia, permite destacar dois temas de interesse.

O primeiro assunto é o que fala da era robótica, que deve criar mais empregos do que destruir, para 62% dos entrevistados. Essa projeção contradiz o senso comum de que a robotização eliminaria empregos.

Acrescenta que deverá haver uma reconfiguração de perfis para quando máquinas inteligentes e pessoas estarão trabalhando ainda mais juntas.

Diz ainda que humanos estarão a trabalhar preferencialmente nas artes, empresas sociais, entretenimento, vendas e marketing.

Um dos CEOs comentou que acredita que quase a totalidade dos trabalhadores ‘blue-collar’ (tipicamente trabalhadores manuais pagos por hora) serão substituídos por trabalhadores ‘metal-collar’ (especificamente trabalhadores robóticos). Complementa que seriam robôs equipados com inteligência e superinteligência. Não seriam robôs sem cérebro.

A área de óleo e gás possui uma diversidade grande de perfis de trabalhadores. Por exemplo, a Geologia e a Geofísica têm perfis pouco substituíveis considerando a automação mais visível, pelo menos inicialmente. Os dados são dedicados, como os dados de sísmica ou de logging, diferindo ainda dos conceitos de big data gerais. As análises são focadas e não estão relacionadas a dados universais e públicos. Certamente existirão movimentos da inteligência artificial e analytics, mas quem sabe não sejam a primeira onda.

Já as áreas de Engenharia e Operações, desde o Drilling, o Desenvolvimento da Produção Topside, Subsea e Poços, bem como as logísticas relacionadas, estão mais disponíveis a estas evoluções da automação conhecidas, tratamento de dados mais inovadores e a robotização em curso. Até porque se assemelham industrialmente às atividades de outros segmentos de negócio que não a de petróleo, podendo assim permitir transpasse de tecnologias de interesse.

Enfim, um tema instigante, que ainda é nebuloso e contraditório, porém real e inexorável.

O segundo assunto da pesquisa que chama a atenção trata da intuição nos negócios e decisões, em tempos da chamada analítica preditiva com base em dados.

Dados e análises de dados têm transformado a maneira de decidir dos CEOs, com o uso de metodologias e ferramentas mais sofisticadas: inteligência artificial nas técnicas de aprendizagem, por exemplo.

Porém, 67% dizem que superpõem as indicações de insights de dados e modelos analíticos computacionais pela sua própria intuição e experiência.

Isto também contradiz o senso comum, de que a análise de dados estaria dirigindo a maioria das decisões de negócios.

O volume e a concorrência dos dados induz o decisor a confiar mais em suas percepções do que em dados e análises, por mais sofisticadas que sejam. Ou seja, valem mais os sinais, a intuição.

Também tendem a se dividir na pesquisa quando o tema é a confiança nos dados e predições. Dos executivos ouvidos, 51% diz que estão menos confiantes na precisão das análises preditivas, também em razão de quererem entender de onde vêm os dados que suportam as previsões futuras. Concluem que não se deve seguir decisões pelas indicações dos dados cegamente.

Diante desses aspectos podemos concluir que, em óleo e gás, os processos decisórios são variantes ao longo da sequência produtiva. No início (geologia e geofísica), as visões são bastante probabilísticas, o ambiente é estocástico. Os números estão sempre associados às chances, não andam sozinhos. O modelo mental da intuição é forte, pois não são questões de engenharia, mas de ciências da natureza, e bastante interpretativas. Têm base forte em conhecimento de cada indivíduo e suas experiências.

Mais à frente, os processos são mais engenheirados e determinísticos, se assemelhando a outros processos de diferentes segmentos de negócio, menos específicos.

Vale ressaltar que há teorias que preferem definir intuição não como um fenômeno mágico, mas sim como opiniões, palpites e percepções da verdade como resultado do processamento de experiências passadas e conhecimento de cada indivíduo. Obviamente, cada pessoa com conjuntos únicos de variáveis, pelas suas janelas de observação do mundo.

A intuição e a sensibilidade humana ainda não foram ultrapassadas pelas máquinas. Pelo menos por enquanto.

Armando Cavanha é professor convidado da FGV/MBA e moderador no cavanha.cafe

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