ARMANDO CAVANHA: Mediações em óleo e gás

Cada fase de um projeto induz um tipo de relacionamento preventivo contratual, de resolução de conflitos

Ao longo da sequência produtiva de óleo e gás, as maneiras de pensar e agir são diferentes. Não porque as pessoas queiram ou optem por isto, mas porque as condições, os valores, o tamanho do mercado, as tecnologias, a temporalidade, a internacionalidade, a cultura dos gestores, tudo influi nessas respostas.

A sequência produtiva upstream de petróleo contém uma primeira parte chamada Exploração. É a fase de investimento com risco de negócio mais intenso. Caracteriza-se por tentar descobrir a existência de hidrocarbonetos no subsolo terrestre ou marinho, utilizando métodos indiretos e depois por perfurações de longas colunas neste subsolo, os poços. Para regiões novas e ainda não exploradas, há  chances de se investir e não se prosseguir no negócio. Por um lado, nada se encontrando;  por outro, não se tratando de riqueza em volume comercial.

As empresas que trabalham nessa primeira fase, que fazem a aquisição de dados sísmicos, praticamente todas são estrangeiras, de alta tecnologia. Como PGS, CGG, Spectrum,  Polarcus, Dolphin , além de outras tão importantes como as mencionadas.

Trazem embarcações especializadas e fazem como se fosse um “ultrassom do subsolo”, por três ou seis meses, retornando à base internacional ou indo para outra campanha em novo local ou continente.

Tripulação estrangeira, por longos períodos no trabalho distante da terra, conjunto nômade e gestão por janelas de oportunidades.

Como pensam estas empresas? Estas pessoas? Como decidem?

Por vezes a atividade é no modelo especulativo, em que nem contrato detém, mas apostam em realizar uma aquisição de dados na região, obtendo informações interessantes e podendo vender a posteriori, no caso de haver atratividade em um leilão de blocos exploratórios.

Em situações de problemas, conflitos ou busca de soluções de impasses, tendem a querer encerrar com brevidade as pendências. Porque as janelas de trabalho dos contratos com as petroleiras são limitadas, restritas. Se perderem a hora, estão fora.

Portanto, desejam acordos, querem soluções rápidas. Claro que não se interessam por perdas nem prejuízos, mas o tempo é mais caro do que às vezes alguma economia, frequentemente. Assim, os contratos devem seguir estes conceitos, bem como as negociações e a resolução de conflitos também.

A segunda atividade de volume contratado alto é a perfuração, o drilling, também na fase exploratória ainda. Comumente é feita por afretadores, que trazem as sondas mais sofisticadas e disponíveis para cada locação das petroleiras. Têm, também, uma visão de temporalidade, apesar de que são mais industriais que o primeiro grupo, aquele que é o mais passageiro de todos.

São investimentos bastante grandes, riscos operacionais altos também, quase todos são estrangeiros ou operadores de equipamentos construídos fora do Brasil: Seadrill, Maersk, Transocean, Seven Marine, QG, dentre outras firmas tão importantes como as citadas.

Possuem um pouco mais de localidade, pois abastecem equipamentos, utilidades, de portos próximos, assim interagem mais com a localidade.

Mas também fazem trabalhos de campanha e entram e saem do país com frequência. É mais comum operarem mais continuamente, movendo-se de um trabalho terminado para outro da mesma ou de outra petroleira na região.

Menos que na aquisição sísmica, mas também são nômades, temporais, querem resolver e liberar as movimentações com o tempo sendo um dos principais direcionadores de decisões.

As questões culturais do país de origem e gestão do equipamento principal, da especialidade e engenharia envolvidos, tudo isso influencia também na maneira de fazer, negociar, solicitar, aceitar, brigar, resolver, desistir, enfrentar, etc.

Em paralelo ou na sequência imediata está a perfilagem de poços, altamente tecnológica, com empresas que são em pequeno número para operações sofisticadas, como Schlumberger, Halliburton, Baker, dentre outras tão importantes como essas.

“Descem” equipamentos nos poços e mapeiam as formações rochosas laterais, definindo contato água e óleo, interfaces, tipos de rochas, presença de gás, altura de coluna de fluido, tudo que se possa verificar em profundidades de 3 mil ou 6 mil metros de subsolo.

Estão mais continuamente no país e em todo o mundo com suas bases operacionais. Pesquisam muito em seus centros mundiais, estão sempre na frente de técnicas apuradas de  “enxergar” o subsolo através de ultrasom,  raios gama, etc.

Como pensam estes pesquisadores de ponta, com tanta tecnologia? E suas exposições em tão diversificada atuação? Como reagem, negociam?

Após estas duas fases dentro da Exploração, caso o projeto seja econômico e haja prosseguimento do negócio, inicia-se o desenvolvimento da produção. Investimento significativo, quem sabe 70 a 80% do volume de dinheiro em um campo petrolífero.

Engenharia básica, engenharia de detalhamento, compras, construções, instalações, lançamentos, mobilização, etc.  Para Topside, os chamados FPSOs e seus módulos; para Subsea, com as linhas flexíveis, árvores de natal; e para Poços, com todos os equipamentos sofisticados de subsolo já perfurado.

São atividades relativamente sedentárias, quanto a movimentações, comparando-se às duas anteriores. Mas com volume de pessoas locais bem maior, interação com fornecedores e subfornecedores constante. Preparam o sistema para produzir nos 20 ou 30 anos em que um campo retornará os investimentos com as receitas de óleo e ou gás obtidos.

No Topside há bastante localidade. Navios, bombas, compressores, controles, manutenção contínua, muito aço e equipamento de superfície.

Como pensam? Negociam? Reagem?

Nesta fase de desenvolvimento da produção há as construtoras e montadoras de grande porte, muitas nacionais, com relações com governo bastante intensas. Algumas passaram por dificuldades recentemente, estão se reestruturando para retomada dos negócios. São empresas com intensa mão de obra local, com entendimento completo do longo prazo e visão de continuidade. Normalmente também atuam nos ramos de estradas, hidrelétricas, etc. Pensam diferente das anteriores citadas, por certo, como fariam e fazem as suas semelhantes em qualquer lugar do mundo, pelas características que têm.

No Subsea, cujos equipamentos se localizam entre a linha d’água e o subsolo marinho, como o Brasil é um dos maiores consumidores do mundo deste tipo de solução no offshore petrolífero, as estrangeiras instalaram plantas fabris no país. FMC, Cameron, GE, Aker, Drill Quip, incluindo outras tão importantes como as acima.

Mas são estrangeiras, apesar de estarem sentadas em solo brasileiro por muitos anos. Pensam diferentemente dos anteriores, certamente. São sedimentados localmente, otimizadores, a janela de tempo é distinta dos predecessores. As soluções passam mais por economicidade e estratégias de longo prazo do que por janelas curtas de oportunidade abre-fecha.

Poços são semelhantes, uma atividade de tecnologias sofisticadas, em que empresas como Weatherford, Schlumberger, Halliburton, dentre outras importantes, que muitas vezes atuaram em paralelo com a perfuração. Com equipamentos de poços e controles, agora atuam de forma mais contínua, operando, mantendo, substituindo partes, tratando de intervenções operacionais.

Ainda há empresas de Logística, Transporte, Alimentação, Inspeção, Dutos, TI, Segurança, Treinamento, grupos com características específicas também. Quem sabe mais locais, com serviços nem tão sofisticados em tecnologias, mas com intensa presença de pessoal local. E com clientes não só de petróleo, mas também de muitos outros segmentos de negócio.

Assim, há fatores que devem ser considerados em negociações, soluções de conflitos, mediações, para esses diferentes grupos citados:

  1. Temporalidade das relações
  2. Tecnologias embutidas ou trazidas
  3. Risco associado ao negócio
  4. Risco operacional
  5. Cultura
  6. Origem de pessoal
  7. Língua falada
  8. Market share na atividade
  9. Volumes de dinheiro aplicados
  10. Preocupação com futuros negócios locais
  11. Etc.

Como exemplo de focalização, a atividade EPC subsea pode ser desdobrada em diversas outras subatividades, o que se faz para permitir detalhar para entender, desenhar e aplicar estratégias distintas e com maior precisão.

O mapeamento de cada interlocutor antes da realização de contratos, a inserção de cláusulas contratuais de adesão e saída, término, término prematuro, indenizações, seguros, contingência, fóruns de mediação, arbitragem, justiça, dentre outras tantas prevenções necessárias, são itens essenciais para reduzir custos, interrupções, ou mesmo consequências indesejáveis que seriam possíveis evitar.

Mediações, em crescimento no país, na tentativa de reduzir e evitar arbitragens e justiça, mais demoradas e caras, têm um espaço especial nesta lógica de mapeamento antecipado.

Sempre deve haver alternativa de fornecimento, ninguém deveria ser 100% fornecedor de alguém, nem fornecer 100% da demanda de outro, pois há riscos nestas dependências exageradas. Se assim o for, deveriam ser comprados. Ou vendidos. Uma estratégia essencial é a contingência, a alternativa.

Concluindo, cada fase e cada camada de fornecedor induz um tipo de relacionamento preventivo contratual, de contingências, de resolução de conflitos, opções de mediação e de tratamento em geral. São diferentes, o modelo mental não é linear.

Armando Cavanha é professor convidado da FGV/MBA

você pode gostar também