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Armando Cavanha: Hora de agir

Nova Petrobras está diante de desafios corporativos, políticos, econômicos e culturais

Roberto Castello Branco possivelmente não se surpreendeu com a complexidade para gerenciar uma empresa gigante e com pessoas preparadas, dada sua experiência no Conselho de Administração da Petrobras há alguns anos.

Quem sabe muitas decisões seriam diferentes se não houvesse a confusão de ser ora mais Estado ora mais empresa – situação que, historicamente, nunca foi resolvida completamente.

Castello Branco tem agido com bom grau de liberdade, pelo menos inicialmente. Sua imagem está bastante alinhada à do Ministro da Economia, Paulo Guedes, com inclinação liberal e pró-redução do Estado.

Obviamente há, no grupamento logo abaixo da diretoria, um acúmulo de mais de 15 anos de partidos de esquerda. Assim, o alinhamento pode não ser total à dinâmica do novo presidente. Quem sabe possa haver discordâncias significativas entre ele e alguns poucos executivos de segundo escalão pela frente. É provável que ainda haja sindicalistas dos governos passados em camadas de gestão, nem tão visíveis a olho nu. Houve uma vitória na recusa do amigo do novo presidente da república indicado para a Gerência Executiva de Segurança por falta de qualificação, o que impulsionou a blindagem temporariamente.

A diretoria de Castello Branco tem duas partes distintas. Uma mais nova, bancada pelo próprio presidente – formada por Carlos Alberto Pereira de Oliveira, Rudimar Lorenzatto e Anelise Lara – convivendo com outra composta por diretores que não vieram com ele, como o nem tão antigo Eberaldo de Almeida Neto.

Eberaldo é experiente e tem um perfil ousado, autônomo. Fala com franqueza e explicita sua posição frequentemente a favor da redução da influência do Estado na corporação. No passado, deve ter conseguido vários inimigos por conta disto.

No coração da empresa está agora Carlos Alberto Pereira de Oliveira. Foi o gerente-executivo mais projetado de 1999 a 2002, tempos de Henri Philippe Reichstul, que o adotou como promissor futuro diretor à época. Mas não aconteceu. Veio a era PT, em 2003, e ele foi quase que eliminado da carreira gerencial. Recuperou-se e caiu diversas vezes. Agora, volta ao poder com o retorno de liberais. Tem uma visão prática, direta, faz mais do que fala. Vai comandar as rodadas de licitação, tanto nas concessões como na partilha de produção, Libra e todos os outros campos e blocos importantes.

O Upstream de reservas, reservatórios e exploração estará sob o seu comando. Cessão Onerosa certamente passará por sua influência técnica e decisão parcial, carregado por outros níveis políticos superiores para a decisão.

A missão de Anelise Lara é clara. Ela estará olhando para o Downstream como um todo, para os investimentos, operações e também a venda de ativos. Não há como prever se o relacionamento com a Gerência Executiva de Desinvestimentos, fora de sua supervisão, será sinérgico. Ela é uma exímia negociadora, trata com cuidado as pessoas, apesar de ter um direcionamento visível aos negócios. É bem vista pelo mercado.

Foco na venda de ativos 

A mudança da Gerência Executiva de Desinvestimentos da Diretoria Financeira para a Presidência é um sinal de que a agenda de Castello Branco terá como um de seus pilares a venda de ativos. O presidente tem, diretamente com ele, o Jurídico, Comunicação, Inteligência e o Escritório de Brasília. Certamente, focará na gestão de portfólio e, assim, no crescimento no pré-sal e desativação de negócios menos rentáveis, incluindo campos em águas rasas pouco priorizados, terra abandonada e Downstream envelhecido.

A BR Distribuidora provavelmente será também objeto de venda, mas essa visão pode não ser a melhor para a empresa, se for analisada a cadeia de valor do poço ao posto. Ter toda a sequência – nem que seja uma parcela, que hoje é de 30% – permite manter valor e inteligência de mercado. Obviamente que se desfazer de parte do refino deve ser uma prioridade, pois atualmente uma só empresa detém 98% da atividade no país. Uma hipótese comentada é vender 50% do refino, sem manter participação nas unidades vendidas. Muitas refinarias não sobreviveriam em um sistema aberto, seriam inviáveis pela logística mundial disponível de óleo bruto e derivados. E estão envelhecidas, requerendo uma montanha de recursos para atualizá-las. O desafio para o governo é não criar monopólios regionais ou de majors internacionais, trocando pelo atual Estatal.

A Transpetro não seria parte de uma sequência de uma petroleira convencional, pelo menos nos padrões conhecidos, com ativos próprios, pois é considerado serviço. Portanto, é evidente que não se deve manter como é atualmente. As majors não detêm frotas marítimas próprias enormes em suas organizações. Porém, é uma área em que os militares trafegam mais densamente, e isso pode vir à tona no futuro das discussões.

A Petrobras já chegou a ter uma dívida de mais de 100 bilhões de dólares americanos. Conseguiu reduzir cerca de 20%, o que é muito pouco ainda. Uma esperança é a devolução de valores da Cessão Onerosa, que lhe poderia render algumas dezenas de bilhões de dólares, porém isso é muito complicado para um país com finanças eternamente negativas.

A petroleira não faz bem o trabalho de casa de desativação de OPEX, um desafio em empresas estatais. Sabe fazer a venda de CAPEX, o que é bem mais fácil. OPEX é o gargalo, mas ninguém quer enfrentá-lo. Prédios, instalações, 50 mil funcionários diretos e mais de 100 mil indiretos: quem mexe nisso?

É preciso estar politicamente muito forte para encarar esse desafio. Até porque o mercado não absorve facilmente esse contingente, se for dispensado. Um mercado sempre secundário, refém de estrangeiros com tecnologias no país apenas para fazer negócios super-rentáveis. Não estão aqui para investir em pesquisa, desenvolvimento e conteúdo local, mas são fundamentais, necessários, em todos os sentidos. Não é assim só no Brasil, mas em todos os países fracos em educação, pesquisa e políticas industriais.

Pautas econômicas, políticas e culturais 

No campo Federal, Paulo Guedes tem desafios de todos os lados. Convencer a sociedade, fazer com que o Congresso avance com seus projetos, com oposições disfarçadas dentro do próprio governo, como os militares em defesa de seus próprios (e antigos) direitos. Tarefa árdua. Mas, aparentemente, ele resolveu enfrentar. No entanto, quem atua com muita força em um sentido acaba tendo a chance do inverso proporcional e reveses como um todo. É do tipo digital, zero ou um. Não é analógico. Negocia pouco, é do estilo de impor.

O Conselho de Administração da Petrobras está em compasso de espera. O Presidente do CA é um militar graduado, que não está acostumado a debates e contrariedade de ideias. Não há dúvidas de que nasce um constrangimento natural para discussões mais acaloradas.

Desistências prematuras de dois membros já antes dos trabalhos começarem, pressões para a saída de Segen Estefen, que resiste – mas enfrenta um ambiente contrário à sua permanência na empresa, conforme publicado na imprensa. A chegada dele no Conselho suscitou debate sobre as origens da indicação – se foi mais por relações de amizade do que por indicações de mercado ou entidades de classe, etc. O Brasil pouco sabe trabalhar por processos.

Os movimentos femininos e de diversidade dizem, inclusive em eventos públicos, que o CA da empresa ainda carece de desenvolver atitudes menos machistas – outra sensibilidade organizacional – mas que não é somente brasileira ou da Petrobras.

O Governo já conta com oito militares ministros, o que se considera um exagero. Recentemente, a imprensa trouxe que o segundo escalão será preenchido com nova leva de militares. Um problema com algum deles, e toda a classe estará afetada, enfraquecendo de vez a virada liberal e de direita que o país experimenta.

Mais independente e ousada é a Conselheira Ana Zambelli. Com passagens pela Schlumberger, Transocean e Maersk, a executiva tem habilidade para falar contrariamente, com delicadeza e firmeza.

Há vagas a serem preenchidas no CA. Alguns indicados desistiram antes da análise de conformidade, que certamente os barraria na entrada – algo desagradável para qualquer biografia.

A dúvida é como será o balanço de forças da equipe de Guedes com a dos militares; se aquele arrojo de liberação de ativos vai mesmo ocorrer. Ninguém pode falar sobre isso ainda, sem arriscar incorrer em erro, pois o jogo ainda nem começou.

Os principais eixos como cessão onerosa, venda parcial do refino, desativação dos campos em águas rasas e em terra, aparentemente devem prosseguir com “militares” e “Guedescistas” unidos. Inicialmente, com independência de Castello Branco e seu padrinho Guedes.

Embate conceitual 

O time que perdeu as eleições não está parado. A esquerda brasileira reflete sobre a derrota. Estaria analisando as vulnerabilidades e o momento certo de reagir. Há o temor de que, achando uma brecha, possa provocar movimentos importantes no país, como paralisações, mobilização de descontentes etc. Sindicatos e federações estão em permanente plantão e sob comando dos líderes dos perdedores para contra-atacar. O país não está estável nesse cenário, pois o Congresso anda de lado, a Alta Justiça protegendo os mais abastados e amigos, há embate conceitual entre alguns militares e outros liberais. Evidentemente temos uma equação frágil para mudanças radicais e necessárias da pauta das eleições. A reforma da previdência – incluindo ou não os militares e os políticos – pode gerar um primeiro movimento de grupos de interesse.

A Petrobras EUA está reduzindo fortemente suas atividades. Vendeu seus ativos de Upstream para a Murphy Oil, ficando com 20%. Vendeu a refinaria de Pasadena para a Chevron. Deve desmobilizar o Procurement e manter o Trading local da Petrobras America, pelo menos por enquanto. Seu tamanho futuro pode ser de um escritório apenas. Porém, a história mostra que essas iniciativas são do tipo “sanfona”, ora crescem, ora desaparecem. Há muitos interesses pessoais e familiares nesse jogo, pessoas influentes com parentes em escritórios do exterior, por exemplo. Como se fosse “embaixada”, “consulado” de amigos.

O Programa de Desinvestimentos não deve parar, pelo menos na cabeça de Guedes e Castello. O programa de campos em terra, por exemplo, teve um revés recente. Um conjunto de 34 campos, chamado Polo Riacho da Forquilha (do projeto Topázio), foi interrompido. Mas deve voltar em breve, como tudo por aqui volta, e aí pode vir com volúpia e açodamento.

Supõe-se que muitos desinvestimentos tenham trocas internacionais. Ou seja, quando a Murphy compra 80% dos ativos de upstream do Golfo do México da Petrobras América, ela passa a ser bem vista nas parcerias futuras com a Petrobras no Brasil. Quando a Chevron compra a refinaria velha e cansada de Pasadena da Petrobras América, e vende Frade no Brasil, passa a ser novamente empresa de boa reputação política no Brasil. Não se pode dizer que existam trocas diretas ou malfeitos em negociação, mas os governos incentivam essas “limpezas” periódicas e “recomeços”.

Cooperação será fundamental 

A Petrobras precisará contratar ou fazer parcerias para resolver problemas importantes. Como o escoamento de gás dos campos de pré-sal, com criogenia ou outro método qualquer. O tratamento de CO2 está na mesma dimensão: ou contrata – e isso é caro – ou faz parceria. Automação é outra dessas demandas; porém a mais significativa é a do rejuvenescimento dos campos maduros.

A recuperação secundária de campos em produção decrescente requer ou conexões com “majors” para dividir tecnologias e investimentos ou provedores de primeira categoria na área. Isso pode muito bem ser feito com parcerias. Há interessados no Brasil, mas querem ver estabilidade e tranquilidade para investir.

Os potenciais parceiros não são novos. As companhias americanas são certamente objetos de desejo do novo governo. A liderança local atual troca afagos com o governo americano, mostra com clareza a vontade de se aliar fortemente com os EUA. Eles virão. Os chineses foram refutados na primeira hora por serem inimigos dos americanos. Quem sabe voltem para seleção futura, mas não parecem ser bem vindos neste momento inicial de radical reposicionamento político. Exatamente o oposto do governo anterior.

Portanto, Exxon, Chevron e mesmo a europeia Shell renascem na preferência de conexões mais firmes, tanto de Governo como da empresa Estatal.

Os próximos leilões já estão agendados. A novidade que podemos ter é o abandono do polígono do pré-sal, permitindo que se realizem tanto concessões como partilha de produção nos campos carbonáticos mais rentáveis. As conversas avançam, mas ainda são restritas ao topo da pirâmide de comando do país. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deve receber em breve essa proposta de “apagar” o polígono do pré-sal do mapa do Brasil.

A cessão onerosa já tem equação escrita Há informações sobre possível recebimento, pela Petrobras, de quantia entre 9 e 18 bilhões de dólares. Seriam relativos à revisão do contrato, viabilizando ajuste entre as partes. E depois o leilão, em setembro próximo.

A Petrobras virá nos novos bids – tanto de concessão como partilha – certamente associada. Tende a ser operadora da maioria dos campos futuros, mas tem uma força contra: seu ainda péssimo perfil de dívida. Portanto terá de balancear esses compromissos futuros de operação em parceria com as gigantes.

A escolha de parceiros é algo que se critica há tempos, pois há subjetividades enormes. A Galp, por exemplo – uma notável empresa pouco conhecia de Upstream no Brasil há 10 ou 20 anos, especialmente para águas profundas –, tornou-se sócia, obviamente mais financeira do que operacional, no início. Ficaram de fora as “majors” Shell, Exxon, BP, etc. A Repsol e as chinesas, cada uma deve ter uma história da conexão nessas parcerias. Por outro lado, há uma rigidez inexplicável na venda de ativos de menor categoria, como campos de terra e águas rasas em decrescimento de produção. Um paradigma provavelmente que tem base nas defesas regionais dos governos em desespero financeiro e de empregos.

Começam a ser estudados prospectos além das 200 milhas náuticas, fora da ZEE. Uma conversa interessante sobre esse tema está em vídeo em português e com legendas em inglês aqui.

Shell e Exxon, dentre outras, já estiveram com representantes do novo Governo, incluindo o vice-presidente e o ministro da Economia. Há uma ótima receptividade para o capital estrangeiro no país. Especialmente o americano.

Há intenções de reduzir o tamanho da administração federal, com eliminação de funções comissionadas e gratificações, e há o retorno do país ao mercado internacional, promovendo e facilitando a presença do Brasil. Regulação, legislação, simplificação: sonhos que o novo governo quer tornar realidade.

Portanto, um Brasil novo nos planos que precisa se tornar um Brasil novo na prática. Só discurso não resolve.

Armando Cavanha é moderador em www.cafecomcavanha.com

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