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Adilson de Oliveira: Geopolítica energética em transformação

Política de inovação articulada com os arranjos produtivos locais são essenciais para aproveitar novos ventos de óleo e gás

No século XX, a integração de mercados assentada nos combustíveis fósseis abriu inúmeras oportunidades para ganhos de escala nas atividades produtivas. Os incrementos de produtividade do trabalho viabilizados por esse processo ampliaram o bem estar material da humanidade. Para dar suporte a esse processo, as políticas energéticas foram estruturadas no desenvolvimento da logística necessária para transportar e processar petróleo, em larga medida, importado do Oriente Médio. A segurança do suprimento de energia originado nessa região tornou-se aspecto relevante da geopolítica global, especialmente após a crise do petróleo da década de 1970.

Desde o início do século XXI, as tecnologias de informação estão revolucionando as estruturas produtivas estabelecidas no século passado. Os ganhos de produtividade passaram a ter sua origem em arranjos produtivos que visam intensificar o processo de trabalho, sendo as cadeias de valor reorganizadas em torno de redes de suprimento de energia crescentemente assentadas em fontes renováveis. Nesses novos arranjos produtivos, a preocupação com a segurança energética tem se deslocado do suprimento para a integridade e a confiabilidade das redes locais de fornecimento de energia. Dois movimentos no cenário energético global contribuem para essa situação.

A identificação de vastas reservas (convencionais e não convencionais) de hidrocarbonetos na bacia Atlântica vem paulatinamente reduzindo a importância do petróleo do Oriente Médio para o suprimento energético global. Por outro lado, o consenso científico quanto à necessidade crítica de reduzir as emissões de carbono para preservar a vida no planeta tem acelerado a participação das fontes renováveis de energia locais na matriz energética global. O acordo do clima firmado em Paris sugere que a segurança humana deverá substituir a segurança do suprimento na agenda geopolítica global.

Os impactos econômicos dessa transformação geopolítica são muito relevantes. Estima-se que 30% dos ativos atualmente cotados em bolsa estão associados aos combustíveis fósseis. A transição para fontes de energia renováveis embute o risco de forte desvalorização desses ativos, com especial ênfase na forte redução das rendas econômicas criadas pelo estrito controle do acesso às reservas de hidrocarbonetos. Esse risco explica a oposição dos países com vastos recursos petrolíferos ao acordo do clima firmado em Paris.

Por outro lado, essa transformação geopolítica abre uma janela de oportunidade para a aquisição de significativas rendas tecnológicas associadas às fontes renováveis de energia. Essa expectativa explica políticas energéticas que buscam difundir inovações que acelerem a participação dessas fontes na sua matriz energética, como ocorre na União Européia e na China. Na prática, essas políticas pretendem deslocar o foco da geopolítica global da segurança do suprimento, negociada sob a hegemonia americana, para a segurança humana, administrada em âmbito multilateral.

O Brasil encontra-se em posição favorável para exercer papel ativo nas negociações envolvendo essa transformação geopolítica. Nossas descobertas offshore são relevantes nas negociações de curto prazo para a preservação da segurança do suprimento, particularmente na bacia atlântica. Por outro lado, nossa extensa rede elétrica estruturada em torno de fontes renováveis de energia delega autoridade para nossa participação nas negociações globais, orientadas para garantir a segurança humana no longo prazo.

Para que o país possa explorar convenientemente a janela de oportunidade aberta por essa transformação geopolítica é indispensável uma política de inovação articulada em torno de arranjos produtivos locais.

Adilson de Oliveira é professor do Instituto de Economia da UFRJ e escreve para a Brasil Energia Petróleo a cada dois meses.

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