A realidade agora é outra

O&G vai se encaminhando para uma nova configuração de negócios, menos dependente de governos

O mercado de petróleo no Brasil está em transformação. Pelo menos nos discursos. Em muitos temas estamos ainda apenas experimentando.

Há percepções de algum risco, por conta dos resultados possíveis das eleições de 2018. Domina a versão da continuidade dos negócios no próximo governo. Enxerga-se importantes movimentos do Ministério de Minas e Energia, com agenda e proposição de prazos para execução dos projetos. Há algumas incertezas com a comentada saída do atual titular da pasta para candidatura política regional e de como agirá o seu substituto.

Um dos temas mais aguardados é o do gás, que aparece de forma irreversível no cenário energético nacional. Tanto para substituir a parte da energia hídrica elétrica em risco futuro com a mudança do clima, quanto para sustentar a faminta indústria local com energias mais eficientes e limpas. Os volumes projetados de demanda são motivadores de investimentos exploratórios, de produção, escoamento, estocagem, movimentações especiais, e necessitam de regulação que permita a expansão ilimitada das atividades pelo território nacional.

A decisão de frequentes licitações de blocos exploratórios, operacionalizadas pela ANP, trazem mais atratividade para a presença contínua de empresas no país, antes nem tão motivadas para se estabelecerem por aqui.

O downstream tende a ter mudanças significativas. Atualmente, a Petrobras é detentora de quase a totalidade da atividade nacional. Se o modelo brasileiro for o de diversificar o segmento, certamente ela deixará parte das unidades para outros interessados. Além disso, uma revolução acontece no mundo com a digitalização da indústria, a chamada 4.0, que possui uma parcela em automação avançada, forçando a redução de pessoal direto nas operações. E grandes investimentos de modernização serão demandados para breve.

Os dutos brasileiros, de uma maneira geral, tendem a ter novas regras legais de uso, fazendo com que outros operadores coexistam, reduzindo a proporção Petrobras. Os novos investimentos em movimentação e armazenagem de fluidos provavelmente não passarão pelo modelo próprio e único dono, mas o de investidores e operadores diversificados, o que muda o status atual de propriedade e contratação.

A regulação de meio ambiente permanece ainda sob olhares atentos, sem se saber para qual caminho irá seguir. Há um início de bom diálogo entre governo e indústria, o que aponta para melhores tempos. O licenciamento ainda é imprevisível, o que poderia induzir redução de investimentos. Há incerteza dos tempos de aprovações e o caráter inesperado das decisões. As discussões sobre compensações por vezes exageradas e sobre o condicionamento de estudos vinculados aos momentos das licenças permanecem.

Os investidores em O&G parecem estar em grande expectativa, apesar de que em conversas privadas reclamam do modelo do país, nos campos tributário, trabalhista e de compliance, e aguardam a continuidade de abertura de mercado.

Os investidores/operadores em O&G estão chegando de forma mais contínua no país, tanto os ocidentais de diversos tamanhos como as surpreendentes  empresas chinesas. Analisam a progressiva saída da Petrobras de campos em terra e o compartilhamento de campos marginais, visando a recuperação de óleo remanescente em reservatórios mais antigos. Isto deve trazer tecnologias e atores novos ao país.

É evidente o esforço para redução da quantidade de subsidiárias da Petrobras, podendo isso abrir oportunidades a investidores e empresários interessados em novos negócios.

Quem sabe o mais relevante dos fatores seja o foca da Petrobras no pré-sal, o que consolida uma mudança do perfil da produção no Brasil. O modelo de parcerias da Petrobras para os campos maiores deve mudar o seu comportamento, aproximado-a de suas associadas, cada vez mais se voltando a projetos e resultados diretos. Grande parte das operações terá sócios que possuem quase que nenhuma interferência de governos em suas decisões.

As unidades da Petrobras no Nordeste, com produções totais na casa de 30 ou 40 mil barris por dia, equivalentes quase que a um só poço do pré-sal, passam a ter novas equações econômicas e discussões até mesmo do sentido de suas existências.

Empresas como Statoil, Shell, Exxon, Total, dentre outras, parecem determinadas a entrar e ficar no mercado brasileiro de forma mais ativa.

A Petrobras internacional, que foi a menina dos olhos em um passado mais distante, depois se tornou o patinho feio da casa, agora necessita ser repensada estrategicamente. Quem sabe, distribuir o portfólio da empresa a permita reduzir riscos e aproveitar as parcerias locais recentes para alavancar maior presença externa.

A empresa  já teve mais de 80 mil empregados diretos, com mais do dobro disso de terceirizados em atividades subordinadas. Sem contar os recursos nas empresas fornecedoras de serviços nas unidades operacionais e sedes, que também contabilizavam uma grande quantidade de pessoas para ela trabalhando em passado recente. Comparando-a com diversas empresas estrangeiras, essas têm diferentes abordagens de pessoal e tarefas, e muitos trabalhos não são feitos no Brasil ou qualquer país onde operam, mas sim em suas sedes, de forma centralizada. Como exemplo, as equipes de geólogos e geofísicos, processamento, interpretação, locação e engenharia básica provavelmente estão trabalhando em suas matrizes e não nos países onde as empresas operam.

Empresas como Statoil, Shell, Exxon, Total, dentre outras, parecem determinadas a entrar e ficar no mercado brasileiro de forma mais ativa.

As políticas industriais ainda não possuem clareza, portanto sem boa resolução. Um Repetro confuso e em eterna discussão, focalizando seletivamente fornecedores de primeiro contato, sem atingir outras camadas. Conteúdo local protetivo e flutuante, ao invés de desenvolvimentista e sustentável.

A universidade ainda se encontra ausente de projetos de pesquisa aplicada e soluções de demandas reais do mercado local de forma sistêmica, principalmente nas questões de desenvolvimento de fornecedores e conteúdo local.

Os afretadores parecem estar chegando com mais força, especialmente por conta das opções da Petrobras para agilidade e menores custos. Existirão consequências importantes no supply chain de bens e serviços, que já vinha experimentando ajustes por conta das crises e dos efeitos sanfona do regramento de conteúdo local.

Os prestadores de serviços especializados já estavam no Brasil há muitas décadas, agora atuam para ajustar tamanho e foco, mas é um grupo razoavelmente estável. Possuem especialização não existente originalmente no Brasil, como aquisição sísmica, perfilagem de poços, instalações em águas profundas. Estrangeiras com filiais locais.

Os prestadores de serviços gerais estão em um momento de reconfiguração, pois o sistema de contratação da Petrobras pela lei 13.303/2016, com foco na publicação das oportunidades,  agita o sistema antigo de seleção pelo cadastro. Também, muitas empresas sofreram crises por conta das questões de compliance recentes e a diminuição da atividade como um todo.

Os fabricantes de materiais e equipamentos, muitos filiais ou braços de fabricantes internacionais, vão a reboque de suas matrizes. Os mais locais permanecem em espera de regras de conteúdo local. Alguns locais de alta performance chegam a exportar.

Para os fabricantes de partes, peças e componentes, pouca coisa mudou. Na eletrônica, quase 100% do que aplicamos de componentes é importado. Esta é uma categoria que poderia ser olhada com mais atenção, pois há carências de toda a espécie, desde financiamento, até ligação com pesquisa de universidades, regras governamentais de apoio, tributação distorcida, etc.

Concluindo, esses e outros fatores encaminham o segmento de óleo e gás brasileiro para uma nova configuração de negócios e posicionamentos regionais, com operadores, fornecedores e reguladores revendo seus papéis, atuações e oportunidades.

Uma coisa é certa. Desta vez o crescimento é cauteloso, com planejamento mais sólido, e cada vez menos dependendo de proteções de governos.

*Armando Cavanha (cavanha.com) é professor convidado da FGV/MBA

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