EUGÊNIO MANCINI: A campeã voltou

Petrobras exibe uma extraordinária resiliência aos malfeitos do controlador e volta a ser esperança dos brasileiros

Segundo o The Global Wealth Report 2016, estudo anual publicado pelo Credit Suisse Research Institute, a riqueza de 1% da população mundial alcançou, em 2016, pela primeira vez, a metade do valor total de ativos existentes no planeta. Isso significa que, naquele ano, 1% da população mundial possuía tanto dinheiro líquido e investido quanto os 99% restantes. O estudo informa, ainda, que essa enorme disparidade vem aumentando desde o início da crise financeira mundial, em 2008.

A economia capitalista, amplamente majoritária no mundo, não tem, portanto, conseguido distribuir, de forma justa, os benefícios do crescimento econômico e do desenvolvimento tecnológico. Dentro de cada país, mesmo daqueles mais ricos, subsistem enormes contingentes de populações pobres, desassistidas e carentes. Não obstante os resultados desanimadores apontados no estudo, a grande maioria dos agentes econômicos continua defendendo, com maior ou menor ardor, uma liberdade crescente para os mercados, com o mínimo de intervenção externa.  A propriedade privada dos meios de produção, o lucro como decorrência da acumulação de capital e a economia de mercado sem qualquer regulação governamental permanecem como dogmas prevalentes nesse novo surto mundial de liberalismo econômico.

O capitalismo gerou uma parafernália de instituições, formada por bancos centrais, redes bancárias, fundos de investimentos, bolsas de valores e de mercadorias, agências avaliadoras de risco e outras organizações correlatas, cujo conjunto constitui um ente abstrato que costuma ser chamado de Mercado. Atuando internamente nos países, em consonância com interesses definidos no nível global, o Mercado dispõe de um poder quase insuperável, influenciando a gestão das empresas e a adoção de políticas governamentais. Ele se opõe à intervenção estatal na economia, questiona as políticas de inclusão social e valorização do trabalho, desaprova os programas de distribuição de renda e redução das desigualdades e se posiciona contra a regulação externa e a tributação dos ganhos de capital.

As preferências e expectativas do Mercado podem ser inferidas a partir do sobe-desce dos preços das ações nas bolsas de valores e da evolução do câmbio. No Brasil, isso restou muito claro nas eleições presidenciais, desde 2002, no episódio do “impeachment” e no julgamento do atual presidente pelo Congresso, episódios em que o Mercado buscou, pelos meios que dispõe, influenciar os resultados a seu favor. O Mercado não tem pátria, não segue preceitos morais, não tem caráter. Basta ver o que está ocorrendo em nosso país, onde um governo com nenhuma credibilidade e envolvido até o pescoço em casos de corrupção recebe o seu apoio explícito em troca das reformas que interessam ao liberalismo econômico e à internacionalização da nossa economia.

A história recente da Petrobras é outro exemplo emblemático. O Mercado juntou todas as suas forças, no Brasil e no exterior, para aproveitar a oportunidade que surgiu com a deterioração da imagem da companhia junto à opinião pública, fruto das investigações e denúncias de corrupção promovidas pela operação Lava Jato. Acreditou que, sem o apoio da sociedade e dos setores políticos historicamente defensores da Petrobras, seria, enfim, possível reduzir o seu protagonismo no setor de petróleo brasileiro, abrindo espaço para “players” estrangeiros no pré-sal e no “downstream” e privatizando o que fosse possível do conglomerado de ativos detido pela estatal. Por meses a fio, ao longo dos últimos três anos, os setores cooptados pelo Mercado – analistas econômicos, agentes governamentais, políticos, jornalistas, instituições financeiras e agências de avaliação de risco – contribuíram para propalar aos quatro ventos uma suposta fragilidade financeira da empresa, cuja insolvência seria inevitável a menos do aporte de vultosos recursos pelo Tesouro Nacional. O beneplácito do Mercado a essa versão fez com que as ações da Petrobras despencassem, chegando a ser negociadas por preços inferiores a R$5/ação.

Aconteceu, no entanto, exatamente o contrário. No final de 2016, a Petrobras antecipou o pagamento de um empréstimo de R$20 bilhões que havia levantado junto ao BNDES e adiou a cobrança do crédito de R$16 bilhões que detém junto à Eletrobrás. Ainda assim, encerrou o exercício com US$21 bilhões em caixa. Nos últimos cinco anos, conforme  registro nos balanços publicados, a geração operacional de caixa da companhia esteve sempre acima de US$26 bilhões/ano, tendo encerrado os exercícios de 2015 e 2016 com saldos de caixa de US$25,6 e US$21,1 bilhões, respectivamente. Em termos de liquidez corrente – capacidade da empresa de cumprir os seus compromissos financeiros de curto prazo (um ano) – a Petrobras dispunha, no final de 2016, de US$ 1,8 para cada US$1 que  tinha a pagar no curto prazo, situação bem mais confortável que a de suas congêneres norte-americanas, Exxon e Chevron, que dispunham de apenas US$0,9. Uma empresa nessas condições não tem problemas financeiros relevantes e não necessita vender ativos cuja alienação possa desestruturar as suas principais fontes de receita.

Em 27 de outubro de 2017, ocorreu o leilão de áreas do pré-sal e a Petrobras mostrou capacidade financeira para assumir novos investimentos em E&P. Exercendo o seu direito de preferência, a empresa foi a grande protagonista das rodadas e arrematou três dos seis blocos negociados no leilão, mediante o desembolso de R$1,14 bilhões em bônus. Os blocos Entorno de Sapinhoá, Peroba e Alto de Cabo Frio Central, adquiridos pela estatal, foram os que ofereceram maior participação de petróleo-lucro à União, de 80%, 76,95% e 75,86%, respectivamente. A atuação da Petrobras no leilão, um dos fatores de sucesso do evento, desqualificou as análises de alguns porta-vozes, que ainda insistiam em avaliar negativamente a situação financeira da empresa.

Indiferente aos desejos e expectativas do Mercado, a empresa prosseguiu com os seus investimentos em óleo e gás, iniciados no período 2010-2014. Em 2017, começaram a operar, no pré-sal da Bacia de Santos, as FPSO Cidade de Maricá, em Lula Alto, Cidade de Saquarema, em Lula Central, e Cidade de Caraguatatuba, no campo de Lapa. Ao longo de 2018, entrarão em operação outras sete plataformas, cada uma com capacidade para produzir 150 mil bpd/dia. As plataformas P-74, P-75 e P-76 serão alocadas no campo de Búzios, a P-67 na área de Lula Norte, a P-68 no campo de Berbigão e a P-69 na área de Lula Extremo Sul, todas no pré-sal da Bacia de Santos. Na Bacia de Campos, será instalada uma plataforma para a área de Tartaruga Verde e Tartaruga Mestiça. Uma oitava plataforma será instalada em Egina, na Nigéria. A operação completa das novas plataformas elevará em 1,1 milhão de bpd a produção de petróleo no pré-sal, cuja região passará a gerar uma receita anual equivalente a 70% da dívida da Petrobras estimada para o final de 2018. Reinvestindo a maior parte de seus ganhos no Brasil, a empresa promove a geração de renda e emprego locais e contribui para uma melhor distribuição da riqueza nacional.

Nossa maior e mais estratégica empresa está de volta, exibindo uma extraordinária resiliência aos malfeitos do controlador e aos equívocos da equipe de gestão. Em seu retorno, a nossa campeã devolve a esperança aos brasileiros que nela sempre confiaram e decepciona aqueles setores que, tradicionalmente, dão preferência à exploração de nossas riquezas por empresas estrangeiras.

*Eugenio Miguel Mancini Scheleder trabalhou na Petrobras. Também ocupou cargos de direção nos ministérios de Minas e Energia e do Planejamento, de 1991 a 2005. Atualmente, exerce a função de Mediador Extrajudicial, capacitado pela Câmara de Conciliação, Mediação e Arbitragem – CCMA/RJ.

 

 


 

 

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